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Quarta-feira, Outubro 24, 2007
Depois de muito tempo sem comer coisinhas boas, por que a Olga, de uma hora para outra, não me quis fazer mais, alegando aumento de colesterol e outras bobagens do gênero; aumento de colesterol, tanto o meu quanto o dela... Ã... Não me restou outra saída senão eu mesmo produzir algum quitute para saborear. Porém, é sabido que assim que fizesse teria de aumentar a receita, seja ela qual fosse, pois naturalmente que todos aqui de casa haveriam de comê-lo também, estando com o colesterol alto ou não. Assim sendo, pus-me a trabalhar em prol dos estômagos ansiosos por coisas gostosas para comer com chá no final de tarde.
Mestre cuca que sou, ou que almejo ser, coloquei um pomposo avental para evitar qualquer desastre com minhas vestimentas. No início, demorou um pouquinho até lembrar onde estavam as panelas, talheres e os ingredientes, detalhe este que só aumentou o prazer pela feitura do tal quitute. Um outro pequeno detalhe precisava ser acertado também; o que fazer para que todos saboreassem e me rendessem elogios. E após uns trinta minutos pensando sobre o que fazer uma panela estalou vazia sobre o fogão ardente em chamas... Ã... Um ligeiro descuido apenas. Deduzi que poderia ser por falta de uma boa música para embalar tal atividade.
Outros trinta minutos se passaram e um pano de prato ardeu em chamas enquanto o fogão também continuou ardendo em chamas... Bosta! Esqueci de desligar a porcaria do fogão, pensei. Tudo isso aconteceu e eu ainda sem saber o que tocar para me divertir. Foi aí que me decidi por ficar com o tal do Charles Aznavous. Mesmo por que era ele que acenava para mim no instante em que eu corria as gordas pálpebras e o nariz pelos discos empoeirados.
Lá pelas tantas percebi que tinha algo a me atrapalhar. Além do telefone que berra tinha a campainha frenética, histérica e impaciente a gritar com toda a força que seus diminutos pulmões eletrônicos permitem. Logicamente que tinha mais fatores para aumentar o nível das minhas atrapalhações; o Charles Aznavous era um desses outros fatores. Ouvir aquele disco não estava colaborando com a perfeita digestão da cerveja que decidi tomar.
Rina Ketty era a próxima da lista. Dois minutos depois o caos estava instaurado por todo o apartamento. O cachorro, aquele lambão de sempre, corria alegremente e tolamente atrás de uma maldita bolinha de borracha, a campainha não demonstrava sinais de fraqueza, o telefone... Bom, o telefone arranquei da parede só para mostrar quem é que mandava, e a dita Rina Ketty por pouco não foi arremessada janela a fora. Na seqüência Dulce Pontes manifestou interesse em tocar para mim, mas diante dos percalços surgidos no decorrer de pouquíssimo tempo optei por um tipo de música mais... Estilo Nick Cave entendeu? Ótimo, que bom que tenha entendido, pois não estou com paciência para reles explicações.
Resolvi então dar uma chance para o cachorro, dei um chute em sua bunda e mandei ele ficar quieto em algum canto qualquer. Depois fui atender a merda da porta e sua maldita campainha enquanto o sombrio Nick esbravejava Get Ready For Love. Sabe, penso que talvez não tenha sido uma boa idéia esta que tive. Obviamente que fui trocar de música; pus então o velho Tom Waits para acalmar os ânimos, ou para excitá-los de vez... Ah, sim, a campainha.
Dei uma colher de chá e fui atendê-la; era a Olga, e com cara de poucos amigos... Sair por aí enche o saco mesmo, pensei. E com este pensamento me dirigi até a cozinha, havia me decidido por tomar um chá preto com um pouco de leite e umas bolachinhas. Mas sabe, creio que o errado tende sempre acontecer comigo, pois não há de ver que, de repente, uma panela de pressão sem tampa e com um furo de derretimento no fundo fora encontrada no fogão... E o fogão? Já não estava mais ardendo em chamas. Havia acabado o gás. Que pena! Justo naquele momento que tinha juntado forças para começar com a peleja alimentícia. Mas fazer o quê! Paciência.
Quanto a Olga, assim que viu meu esforço para a contribuição do mal-estar do meio-ambiente lascou-me um pano molhado nas pernas. Admiro esta mulher, pois ela sempre tem um jeitinho todo especial para me lembrar de que não devo me aproximar das coisas quando o meu conhecimento sobre elas é pouco ou praticamente nulo. Então, com as pernas doídas e ligeiramente contrariado sobre todas as coisas, fui para rua gritar... De raiva, ou de dor, ou sei lá do que.
Quando vou para a cozinha até as panelas se escondem de mim, pois sabem que coisa boa não vai acontecer.
Oiram Bourges 00:33 [+]
Quinta-feira, Outubro 18, 2007
Perdido estava eu caminhando por algumas vielas e cidadelas quando tropecei nuns pedregulhos. Ralei os joelhos e cotovelos e tudo mais. Fui amparado por moradores, ou escondidos, como queiram chamar, pois, pessoas que vivem socadas em becos e buracos não sei se são consideradas moradoras ou escondidas... Se bem que... Tanto faz. Não faz a menor diferença saber em que classe pertence tais pessoas. Mas voltando ao assunto principal; tinha passado uma tarde agradável com alguns desconhecidos num café no centro da cidade. Uma tarde levemente fria e com chuviscos, tipicamente curitibana, boa para se tomar um café ou um chá com leite.
Papo vem, papo foi até que tudo aquilo encheu o saco. Caso que era dado o momento para cair fora de lá antes que me aborrecesse e começasse a xingar todos que lá estavam. Sabe como são os velhos conversando; começam com um papo à toa, depois passam para a política, futebol, mulheres... Do tempo que faziam alguma coisa de fato, depois terminam se xingando, pois, logo após uma longa conversa nada muito produtiva, todas aquelas palavras largadas nas mesas e nos cantos do recinto não têm mais nada que se fazer além de baixarias.
Bom, depois que cai fora do tal café tratei de ir embora, já estava cansado, quase sem forças, um trapo por assim dizer. Então entrei no ônibus e esperei com que meu ponto chegasse o quanto antes. Por sorte, e quase que por milagre encontrei um lugar para sentar, aliás, existiam vários lugares vagos, coisa esta difícil de acontecer. Mas procurei o melhor lugar para mim, um lugar que tivesse uma boa vista da condução e ao mesmo tempo das ruas. Como estava cansado, lá pelas tantas adormeci de tanto olhar as coisas passarem do lado de fora. E adormeci sabendo que poderia acontecer algo de errado. Na verdade creio que desde o momento que entrei no ônibus já tinha algo de errado; nunca vi aquele motorista, muitos lugares vazios, tudo tranqüilo... Mas tudo bem.
Quase duas horas se passaram e eu ainda estava lá... Estranho; em tempos normais já teria levado uma chamada do motorista, pois teria chego ao final da linha. Foi aí que constatei que estava passando por uns lugares que jamais havia passado antes. Se bem que qualquer lugar para mim pode soar como novo ou estranho, mas aquilo já era demais. Parecia não ter mais fim. Assustado e ligeiramente babado apertei a campainha e me larguei pra fora, queria saber onde estava. Mas veja só quantos pensamentos passam em nossas cabeças em horas como estas. Poderia ter perguntado para o próprio motorista, ou para o cobrador que estava dormindo num dos bancos vagos.
Tudo bem, já era tarde para isso mesmo. Então resolvi caminhar até encontrar alguém para me informar de qualquer coisa. Incrível como as horas passaram rápido naquela tarde, já era noite, e pelo que pude perceber já era tarde também. Tudo para complicar com minha vida. Há esta altura dos fatos o pessoal de casa já devia estar louco à minha procura... Ou não. Um tanto de tempo depois encontrei um sujeito seminu se lavando na beirada de um riacho. Quando cheguei mais perto para pedir informações o tal sujeito assustado com minha presença se atirou na água e saiu nadando sei lá para onde. Não pude ver, estava escuro.
Então percebi que tinha me ferrado mesmo. O lugar onde eu estava parecia o fim do mundo, um meio de mato qualquer. Só não era desabitado por que ainda se via, muito ao longe, pequenas casas com suas luzezinhas fracas acesas. Telefone não haveria de ter, pensei. Estava perdido, continuei pensando. Contudo, lá pelas tantas alguém surgiu das trevas, pois não tinha poste de luz algum pela redondeza, e perguntou o que eu fazia por aquelas paragens. E eu, do alto da minha sabedoria respondi que não sabia e que não fazia a menor idéia de que lugar era aquele. Depois disso este alguém me conduziu até sua casa, ou esconderijo, sei lá. Convivi com esses tipos por alguns dias, semanas, ou meses, não sei bem ao certo quanto tempo fiquei lá. Só sei que assim que o dito ônibus apareceu por lá eu tratei de me enfiar nele e ficar bem acordado para não passar da Rui Barbosa. Senão, sei lá para que lado poderia eu seguir desta vez.
Assim que cheguei em casa percebi o quanto minha barba tinha crescido. Parecia até com aquele velho safado do Noel. Logicamente que antes de eu poder sentar e descansar e tomar uma cervejinha e soltar um arrotinho e dar aquela mijadinha tive de me explicar para a Olga, as crianças, o Pereirinha, que estava de cabeça para baixo e se balançando no lustre, o Azambuja arrastando cadeiras e sei lá mais o que, e o Adalberto, que havia perdido, ou melhor, quebrado seu rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves. No entanto, continuava ouvindo suas músicas, agora através de um aparelho de MP4... Modernizou... Tudo bem, faz parte. Já o Corpo de Bombeiros, as polícias Federal, Civil, Militar e a Interpol, as ambulâncias e o Esquadrão Ultra enfiaram suas violas nos seus devidos sacos e foram embora. Simples assim. Daí, em seguida, tomei um banhozinho e me arremessei na cama. Precisava dormir gostoso depois desta aventura besta. Dias depois precisava fazer algo interessante, então resolvi escrever um livro com um montão de besteiras escritas nele. É só.
Oiram Bourges 01:53 [+]
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